"Histórias de Quem Não Viaja" Cap.2

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"Histórias de Quem Não Viaja" Cap.2

Mensagem por Zé Joelho em Qua 26 Set 2018, 21:09

"Casa"

Alguns pensam que Hering-Shink seria uma aberração ou criação de um gênio triste – impossível tal fragilidade ter sido o resultado de um processo evolutivo sério. A pele um tanto rugosa, as camadas de gordura sem músculos, os olhos grandes que quase não enxergam e a dependência tamanha de uma mochila inteligente – que muitos inclusive julgam ser mais inteligentes que a espécie de Hering – são características de uma espécie pronta para ser exterminada, ainda mais nos dias que se passam essa estória.
Entretanto a espécie de Hering tem nome: “Sur-Irê” – nome em língua nativa que a muito fora esquecida no planeta natal, em Irê. O planeta em si não tem nada de especial; é menor que a Terra, é mais quente que a Terra e praticamente não recebe turistas. É uma civilização quase isolada e se forem olhar documentações pelas galáxias perceberam que poucos se importam com eles. Tem potencial de autossuficiência energética uma boa produção de vegetais. O inverno dura apenas dois meses, mas normalmente é a estação do ano que morre mais gente.

Como podem ler: não há nada de interessante lá. Os surirê são conhecidos pela pele enrugada, um dos maiores níveis e burocracia inútil, casos epidêmicos de comportamentos compulsórios e uma das piores espécies quando o assunto é puxar um papo ou manter uma conversa. Grande parte das populações urbanas querem virar legalistas e burocratas para criar, destruir ou participar de processos burocráticos. Dizem até que o a espécie ancestral dos surirê teriam passado por quatro processos legais para virar uma espécie diferente: e demorou assim pois sempre faltava algo que estava nas entrelinhas.
Foi cansativo reunir as informações sobre Irê e os surirê, tanto quanto é falar e lembrar deles. Foram quinze anos terrestres para aceitarem o requerimento do requerimento do requerimento do primeiro pedido de averiguação factual histórica segundo o edital de...  Acredite apenas que tudo que já foi dito aqui sobre eles é real. Qualquer informação extra será deliberadamente criada.
A três dias Hering-Shinke fugiu deste planeta – por engano. Existem processos para abrir processos para mudar a hora em que se faz um lanche. Existem advogados especializados em ler as linhas miúdas das linhas menores do contrato simplificado. Os únicos que conseguem passar por aulas de pilotagem trabalham por apenas dez anos, pois até conseguirem a autorização para avaliação final do teste último de pilotagem, a idade de aposentadoria chega. Nem é preciso dizer que a previdência praticamente não existe uma vez que todos morrem antes de conseguir por as mãos nos créditos.

“Fugir” é um termo raramente utilizado; até para escapar da jurisdição, tem processos – e ninguém entende bem dessa área pois já foi esquecido que é uma possibilidade. A última pessoa que fugiu, dizem, foi a espécie ancestral que se recusou a passar por tantos processos. Há lendas que ambas eram uma só espécie, que seria um mito de criação onde dois indivíduos vão por caminhos opostos. As pessoas não discutem muito isso, porque seriam processadas por não terem aberto um processo de abertura de tema passível de discussão. A família Shink jamais seriam processados por não abrirem processos – Jamais!
Os Shink são de classe média-alta; gerações e gerações de juízes respeitados mundialmente. Foi Brun-Shink, mãe de Hering, que julgara as papeladas acerca da feira de frutas da rua oito: caso que levou a público a quantidade de calorias nos sucos de frutas e acabou com um monopólio inteiro de sucos em pó. Itamoriá-Shink, pai de nosso protagonista, foi o responsável por acabar com a assinatura obrigatória de remessas que irão pro lixo. Logo depois voltou atrás, pois estavam jogando qualquer coisa assinada no lixo. Um herói.

Já nosso Hering-Shink, mimado desde pequeno e destinado a ser um grande juiz, era terrível na vida jurídica: não sabia a diferença entre referendo e memorando, não sabia quais das seiscentas e noventa e dois subcategorias temáticas de documentos se encaixava, por exemplo, a contratação de grampos. Gostava de colecionar Caccons, de apreciar livro-filmes de ação e de analisar marcadores de página: teriam de todos os tamanhos? É melhor de pano ou de madeira? Ferro danifica tanto assim o conjunto de leis? Marca-página invisível é totalmente inútil? Quem faz os marca-páginas?

E, para piorar, desde sua idade adulta, quando a última mochila de auxílio-vida é acoplada na parte das costas, ele vem sofrendo com o sistema, que julga estar com defeito, que se auto intitulou “Tartius”. Sem a mochila qualquer surirê morreria: tanto porque regulam o calor interno dos indivíduos, como aumentam o espaço de memória para conseguirem assimilar todas as regras e acordos feitos na história do planeta. Tartius, foi constatado, estava com defeito – não se importava o suficiente com seu hospedeiro. Por terem acontecido mortes provindas de mochilas autoconscientes antes instalaram, no código base, um bloqueio de desativação, ou seja, a mochila não poderia parar de aquecer o hospedeiro.

A três dias atrás Hering-Shink saira para levar a papelada de requisição de alimentos em troca de créditos trabalhados, ou seja: permissão para fazer compras. Estava com tudo em mãos: extrato de horas trabalhadas, extratos de pagamento de serviço, extrato de conta bancária, assinatura triplamente autenticada em três cartórios que o extrato é verdadeiro, comprovação de vontade fazer compras, lista assinada por um membro da família de possíveis alimentos e itens para casa (autenticada, obviamente), histórico de outras compras, confirmação de outros membros da casa anexada a lista de moradores com código de identidade com foto 3x4 e cópias impressas de tudo isso (essa última não precisa mais ser autenticada a uns dois meses pois Sabir-Shink, tio de Hering, tinha revogado tal verificação – outro herói).

Ao entrar pelo portal da Secretaria de Vontade de Aquisição de Produtos do Mercado da 98ª região se deparou com duas portas: “D.A.M.” e “D.AM.” Escolheu esta última. Subiu por um elevador que não se lembrava de existir e saiu em uma sala cheia de controles, botões, manche e com uma visão até que bela da cidade, agora menor, toda quadrada e sem muita cor. A primeira porta era o Departamento Alimentício do Mercado. A segunda, e ele só veio a perceber mais tarde, era a Divisão de Aviação Mundial. Ao tentar chamar algum atendente ou encontrar algum lugar para colocar toda a papelada, Hering acionou a nave. Com um pulo ele tentou apertar todos os botões, o que fez entrar em pane do piloto automático que, com toda a velocidade, o levou para fora do planeta.

Tartius não se surpreendeu com o descuido, porém o susto foi ver um buraco de minhoca na rota desregulada na nave. Não foi bem Tartius que tomou susto, ele apenas disse “Eita”.
Vejam bem: Era obrigatório a todos perceberem os pontos em títulos abreviados, o que Hering não fez. Como a nave ligou e partiu sem problemas? O único procedimento era de não utilizar as naves para comércio enquanto houvessem anomalias no espaço próximo, mas ninguém tinha criado uma obrigatoriedade de desligar todos os sistemas das torres e naves mercantis.
Não é uma sociedade perfeita.
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Em Alloviz

Albivéc


Hering-Shink se esgueirava pelas multidões dos salões do térreo. A confusão era tanta que em um momento ele subiu de andar e não percebeu e, quando foi subir mais um, acabou descendo. Hering precisava de ajuda, um guia ou alguém que pudesse levar ele de volta para seus marcadores de página.
Tentava conversar com passantes, mas sua voz mal era ouvida. A maioria era bem maior que ele e, os que eram menores, passavam muito rápido na altura de sua cintura e logo sumiam. Sentiu cheiro de carne podre e percebeu que essa parte do segundo andar, mais afundo depois da entrada, é uma feira. Forçou sua vista para o portal de entrada e estava escrito em comum “Sala de Registro” – onde novos presos seriam registrados e devidamente vestidos para sua nova vida na prisão; agora era uma feira de baixa qualidade. Haviam frutas (ou assim Hering achava que eram) que nunca tivera visto antes. Alienígenas de todas as formas, cores, cheiros e concepções de higiene.

Foi levado pela multidão por uns segundos e, quando conseguiu fazer força para sair da torrente de gente, entrou numa outra ala, agora com ladrilhos verdes claros e piso branco, com o que seriam ralos pentagonais. Três cilindros saiam da parede acima que espirravam água ou vapor, dependendo do botão pressionado na parede logo abaixo. “Parecem banhadores” - pensou Hering. Estava correto; no projeto inicial era aqui que os guardas tomavam banho entre os turnos. Agora os vendedores de criaturas aquáticas para alimentação utilizavam o lugar como área de demonstração e venda.

Os animais vendidos eram tão frescos que, ao ligar a água e pôr o produto em baixo da corrente, ele se debatia e piscava os olhos (quando os tinham). O cheiro do lugar não era agradável: os animais fediam um tanto e já vinha um cheiro forte do canto mais fundo do ambiente: usavam os ralos grande contra inundação como mictório e recolhimento de material para adubo.
Uma vendedora chamou sua atenção: um ser vermelho com corpo humanoide (bem mais humanoide que os surirê) e musculoso com, o que seria cabelo, raspado. Sua venda não tinha os cilindros na parede e mesmo assim muitas pessoas paravam para ver seu despojo; ou sua exoticidade. Ela era uma Avior, espécie feroz, bruta e militarmente muito apreciada nas galáxias. Sua barraca tinha os maiores marinhos de todo esse setor. Só uma Avior teria conseguido tais caças. Aviors mulheres então era ainda mais raras fora de seu planeta natal.
- Percebo uma variação hormonal incomum. – Tartius falou fisicamente
- Talvez ela seja uma boa pessoa para me tirar daqui. – Hering cochichava para si.

Conseguiu sair do tumulto e fica de fronte a barraca da Avior, que ocupada não o notou. A testa de Hering batia exatamente na mesa e, consequentemente, na boca de um Hurg marinho. Aproveitou que não tinha sido notado e perguntou:
- Tartius, opções de tópicos para engajar uma conversação.
- Reformule o pedido. – Tartius respondeu
- O que eu falo com ela? – Hering olhava em sua volta procurando que não o notassem
- Pergunte onde ela mora.

A avior pegou um cutelo e cortou uma cabeça de bicho, ao olhar pra baixo viu a criatura terrível que era Hering esticando um braço:
- Onde você mora, senhora?
- Eu não acredito que você perguntou mesmo isso. – Tartius, se pudesse rir, o faria

Hering contorceu seu pequeno corpo noventa graus para os lados evitando falar alto:
- Você que disse que seria uma boa!
- O fato de eu ser um apetrecho e você o meu usuário me causa dor. – Tartius disse diminuindo o volume
- Você quer o que? – Perguntou a Avior
- Er...- Hering começou a travar, algo bem surirê.
- Você saberia onde há um guia? – Tartius sobrepôs a voz de Hering

A Avior parou por um instante e, com o cutelo, coçou o queixo.
- Você diz um “faz-tudo”? Ou um “Liper”?
- Sim. – Hering respondeu
- Bom, os “faz-tudo” estão em toda parte. Conheço um no quarto andar. Lipers são do oitavo andar, sua maioria. – A avior voltou a cortar carne
- Como eu subo de andar sem me perder? – Hering forçava um sorriso descontraído

Um vidro esférico com gás branco dentro e uma base de bronze com inscrições flutuava ao lado de Hering. Dentro da fumaça haviam pontos de cor azul e prata. Era um Cnolo.
- Eu posso te ajudar, ser sólido. Eu sou Para-Sh. Sou um “faz-tudo”. – toda vez que Para-sh “falava” os pontos coloridos no interior do gás mudavam de lugar.
- Muito obrigado, senhor! – Disse Hering – Obrigado, senhora... – disse saindo da barraca da avior

A avior, olhando o corpo alaranjado e o globo de vidro flutuante indo embora apenas disse:
- Boa caçada, Parac.
- Obrigado, Jáza. - o globo de vidro piscou

Andando agora com o guia Para-Sh, o pequeno Shink se encolhia e se esgueirava novamente na multidão.
- Você ouviu o que ela disse? – Tartius interveio novamente, agora na cabeça de Hering
- O nome dela é Jáza... – Hering se derretia
- Chamou o Para-sh e Parac. - insistiu Tartius
- Parac pode ser outro - Hering dizia baixinho
- Ou Para-sh é outra pessoa. – Tartius então falou fisicamente – Pra onde estamos indo, exatamente?

Para-sh ignorou e continuou flutuando. O globo batia em outras pessoas, quicava no chão as vezes, sumia quando ia olhar por cima da multidão. Enquanto isso o corpo alaranjado do surirê era amassado por pisadas no pé, coxas e tentáculos no rosto, diversos esporos e peles de diferentes temperaturas e texturas passavam na sua pele. Não se sabia o que era morto, o que estava morrendo ou o que não queria viver. Um barulho de vidro quebrado alertou Hering que avançou um pouco mais rápido e viu o globo sendo quebrado por um indivíduo duas vezes o tamanho de nosso surirê.
- Ei, você! – o ser olhou para Hering – Estava com esse babaca do Yorir?

Hering chegou a olhar para trás, mas uma pequena plateia já criava um círculo entre os dois.
- Eu?
- Tu sim! Te vi correndo até ele! – o ser parecia ter escamas, mas era difícil entender o que eram seus braços, ou tentáculos, ou mesmo caldas
- O Parac ou o Para-sh? – Perguntou Hering
- Que?
- Eu não sei o nome dele!
- Como tu não sabe se eu to falando dele? E tu ainda falou dois nomes!
- Como assim?
- Como assim o que, cara?! – o ser estava indo pra cima de Hering
- Eu não sei.
- Mas eu acabei de perguntar!
- O que?
- Sobre o morto aqui! – o Ser apontava com a calda, ou braços, para o vidro quebrado
- O Parac?
- É!!
- Ou o Para-sh?
- O Que?!
- Que?
- Tá me fazendo de idiota, nanico?

Hering se encolheu e estava quase fechando os olhos esperando um golpe. Tartius voltou a falar fisicamente:
- Odeio o Yorir.
- Tu odeia? – o ser recuou um pouco
- Odeio? – Hering piscava forte
- Odeia ou não odeia?! – o ser começou a espumar pelos olhos, que se revelaram mais de dois: eram oito.

Do meio da roda de espectadores saiu um corpanzil de metal com um ser de três pescoços alongados, algo parecido com três cobras indo e voltando em um ciclo, as três falando ao mesmo tempo:
- Você odeia o Yorir? Seu Ghandir de merda!
- E você ousa ir contra o poderoso Ghandir, seu monte de bosta? – o ser de oito olhos gritou e partiu pra cima do reptiliano.

Alguém que ouviu o grito respondeu com outro grito à sul da roda:
- Ghandir é resto de larva, seus imbecis! Aqui é Samor! – E um pote pequeno, porém transbordando de adubo foi lançado no meio da roda.

Como um gatilho do andar todo começou a brigar. Cada um gritando um nome diferente. A briga começou por desentendimento de gangues, porém no meio das gritarias estavam também mitos antigos, deuses de religiões diferentes e filmes preferidos de outros. Hering estava abaixado rastejando entre a pancadaria.
- Você começou uma briga, Tartius! Eu vou morrer aqui! – Hering berrava e rastejava
- Eu limpei o caminho. Olha pra direita.

Na direita uma porta abriu-se no meio onde saíram mais e mais pessoas para brigar com garrafas quebradas na mão e berrando “Criacionismo!”. O elevador estava vazio. Hering rastejou até lá. O elevador tinha o tamanho de um banheiro familiar, porém não tinha espelho. Os botões dos andares eram muito altos e o sistema de voz estava quebrado. No meio da briga um corpo foi lançado pro elevador e caiu imóvel.
- Sobe nele. – Tartius instigou
- Eu não vou tocar nele. E se estiver vivo? – Hering protestava

E de fato o corpo começou a se mover e fez uns grunhidos, assim que ia levantar seu corpo, um tiro, que era prometido para outro, atravessou a cabeça do agora morto.
- Qual sua desculpa agora? – Tartius perguntava

Hering nem protestou e começou a arrastar o corpo morto até embaixo dos botões. Pesou no peitoral do ser, que esguichou mais sangue e, no susto, quase fez cair o pequeno surirê. Apertou o botão mais próximo e a porta começou a fechar, porém, ao faze-lo perdeu o equilíbrio e apertou o de baixo também. Estavam selecionados o quarto andar e “fechar portas”. Isso fez com que as portas fechassem mais rapidamente esmagando uma pessoa que corria pro elevador.
- Você! Abra isso! Argh... – o individuo grunia
- Eu não consigo! – Hering escalava o corpo morto novamente para alcançar os botões

Apertou erradamente o de fechar, depois o de abrir e logo em seguida o de fechar. As portas então ficaram abrindo e fechando e esmagando o outro macho até que o corpo deste caísse de frente no chão do elevador. As portas então fecharam de vez.
- Ele... Ele morreu? – Hering ainda em cima do corpo morto
- Minha análise diz que não. – Tartius respondeu
- Baseado em que dados?
- Baseado no meu palpite.

Quando o elevador passava do terceiro para o quarto andar ele parou e uma luz vermelha começou a piscar no teto. Na caixa de som do elevador uma mensagem começou a se repetir:

“Contingência! Contingência! Equipes da Segurança a seus postos! Contingência!”
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