Impressões sobre "O Incolor Tsukuru Tazaki e Seus Anos de Peregrinação"

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Mensagem por Thear em Qui 27 Jun 2019, 00:46

Continuo correndo atrás do atraso no Desafio de 10 Anos. Esse também deveria ter sido feito em março. Não vou dar spoilers sobre o enredo aqui, mas discutirei sobre algumas temáticas apresentadas.

Eu tinha o mês inteiro de março para ler "O Incolor Tsukuru Tazaki e Seus Anos de Peregrinação", um livro de 2014 de Murakami Haruki, que me foi recomendado pelo @Tarin. Eu acabei demorando bastante pra começar a ler, e só terminei no começo de Junho, e agora que estou escrevendo um texto a respeito.

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E nem sei bem o que escrever a respeito. Nunca escrevi nenhum tipo de resenha/avaliação de livros. Surpreendentemente me encontro agora sem saber bem o que falar sobre um livro de mais de 300 paginas. Que raios?

Vai ser curto então. Vou começar colando a sinopse aqui.

"Tsukuru Tazaki é um homem solitário, perseguido pelo passado. Na época da escola, morava com a família em Nagoya e tinha quatro amigos inseparáveis. Agora, vive em Tóquio, onde trabalha no projeto e na construção de estações de trem e namora uma mulher dois anos mais velha. Mas não se esquece de um trauma sofrido dezesseis anos antes: inexplicavelmente, foi expulso do grupo de amigos, e nunca mais os viu. Agora, ele decide revisitar o passado e reencontrá-los, para saber um pouco mais de cada um — e de si mesmo. Sua jornada o levará a locais distantes, numa transformação espiritual na busca pela verdade. "O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação" é um livro emocionante sobre a busca de identidade. É uma história sobre pessoas perdidas, que lutam para lidar com o desconhecido e aceitá-lo de algum modo. Como cada um de nós. "

A primeira coisa que suspeitei já antes de começar o livro, e se confirmou em seu decorrer: eu posso me identificar um pouco com o trauma principal do personagem. Não é como se fosse uma questão central da minha vida (mas talvez seja uma das), mas já passei por uma versão de ter um contato importante cortado de maneira relativamente fora do meu controle.

Enquanto Tsukuru levou 16 anos pra perceber que aquela ruptura era um peso grande em sua existência, pra mim é profundamente obvio desde o momento que aconteceu. De certa forma isso é melhor, pois significa que posso aprender a lidar com isso uma vez que estou consciente do fato, de certa forma é pior pois significa que a questão volta e meia vem a tona quando não estou em condições de lidar com o fato... de certa forma é melhor, pois considerando todos os detalhes, a ruptura social pela qual passei com uma pessoa específica foi bem menos súbita e drástica que a que Tsukuru passou, e mesmo vinha vida social fraca me proporciona uma rede de suporte melhor que a que o protagonista do livro tinha a disposição.

Então a identificação para por aí. Eu consegui entender bem algumas partes dos sentimentos de perda pelos quais ele passou, mas tinha muitas diferenças também. Eu também sou uma pessoa drasticamente diferente de Tsukuru no geral. Mas ainda assim essa identificação que de fato ocorreu me chamou atenção, porque eu raramente me identifico significativamente com personagens de ficção, e geralmente nem é algo que busco ou priorizo em uma obra.

Ainda sem entrar em spoilers, talvez eu deva comentar brevemente a temática oculta por trás do livro? Pelo menos na minha perspectiva, o livro pareceu querer chamar atenção ao fato de que cada pessoa é o protagonista da própria vida, e cada vida é tão complexa e completa quanta a sua.

Acho que o termo "Sonder" foi cunhado pelo "Dictionary of Obscure Sorrows" em 2014 para descrever o sentimento que se tem ao perceber esse fato. O termo foi até aceito em vários circulos e é utilizado em músicas, animações e outras obras de arte sobre esse assunto. Vou deixar aqui abaixo o vídeo original que explica o conceito.



Sonder então. O livro não usa esse termo, claro... Mas Tsukuru é confrontado com o conceito cada vez mais intensamente no decorrer do livro, ao mesmo tempo que fica claro que o conceito já era importante na vida do mesmo (e no enredo do livro), desde o começo, considerando o fascínio do personagem por estações de trem; o exemplo maximo de um local onde milhares de pessoas circulam constantemente, cada uma seguindo sua própria vida complexa e completa, na qual são os protagonistas.

A parte mais fascinante para mim da realização chamada "sonder", é a realização que vem a seguir... Se a minha própria vida é uma estória tão complexa e completa, e cada outra pessoa no mundo vive uma vida de complexidade e completude em escala igual ou comparável a minha... Quão incrivelmente complexa e completa é a estória total da humanidade? A soma de nossas experiencias e conflitos?

Para fins de estudos das ciências sociais ou quaisquer outras, tipicamente reduzimos grandes números ou a totalidade das pessoas à estatísticas. É absolutamente essencial fazer isso. Mas é por vezes também essencial lembrar que qualquer pessoa carrega consigo sua própria perspectiva da realidade, e que a totalidade da experiência e complexidade da humanidade é de tamanha imensidão que nenhuma pessoa num único tempo de vida jamais poderia absorver tudo que a humanidade tem a oferecer.

Sim, eu fiz isso. Eu acabei de jogar um argumento pró-imortalidade aqui. Desculpem, não resisti.

Ok, falar desse livro foi mais fácil do que pensei. Talvez escrever sobre livros seja simples, se eu mantiver no futuro essa estratégia de simplesmente falar de tudo que o livro em questão me fez pensar a respeito, e não necessariamente falar tanto do livro.

"O Incolor Tsukuru Tazaki e Seus Anos de Peregrinação" é definitivamente um bom livro, que recomendo especialmente pra quem gosta de livros mais contemplativos e "psicológicos".

O final me frustrou, mas finais frequentemente me frustram. Esse é o tema da minha vida, não?

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