Impressões finais de "One Day at a Time" (versão de 2017)

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Impressões finais de "One Day at a Time" (versão de 2017)

Mensagem por Thear em Qua 12 Set 2018, 23:56



Recentemente eu andei discutindo aqui no fórum como o tom das séries live action anda me desagradando. Praticamente tudo é excessivamente sério, apresentando uma visão negativa do mundo, com alguma ideia repetitiva de que "pessimismo = maturidade". Até mesmo comédias live-action tendem a cumprir essa regra nos últimos anos, o que me levou ao ponto de ter que rever Friends, e foi uma experiência tão medíocre quanto eu esperava. Também tentei ver Unbreakable Kimmy Schmidt, mas parece que comédias que não são cínicas acabam sendo idiotas.
Eu sempre tive uma impressão bem negativa quanto à séries Live Action, e isso só estava se aprofundando.

Algumas semanas atrás me foi recomendado "One Day at a Time". E a série não mudou minha opinião, mas satisfez temporariamente minha necessidade por séries mais "light-hearted".

A série é uma... "reimaginação" de outra homônima dos anos 70. A original era uma sitcom que tratava de uma mãe divorciada criando suas duas filhas. A nova versão é sobre uma mãe divorciada com uma filha e um filho + a avó dos dois e o vizinho intrometido... Só que a família é de descendência latina e isso é bem importante para todos eles. O tema comum sendo a "mãe divorciada", mas imagino que existam mais paralelos que não vou saber se não assistir o original... e provavelmente nunca verei o original, então dane-se, não descobrirei.

Vou pontuar minhas impressões da Sitcom focando especificamente em cada um dos personagens, pois acho que é o mais conveniente para opinar sobre uma sitcom comum.

Penelope Alvarez
A mãe, da família. Acho que é a mais consistentemente engraçada da série.
Penelope é uma veterana de guerra, e seu marido Victor também, só que ele foi muito mais impactado por Síndrome de Estresse Pós-Traumático e teve problemas com alcoolismo, e tendia a se recusar a buscar tratamento. A tensão causada por tudo isso levou o casal ao divorcio, e Penelope ficou com a guarda dos filhos.
Quando focada na Penelope a trama geralmente se concentra em suas dificuldades em cuidar de toda a família, seu conflito entre começar novos relacionamentos ou não, e por vezes os próprios conflitos em seus relacionamentos. No geral a própria série à retrata como um suporte constante para os outros personagens, apesar de ser a protagonista. Ela mais reage aos conflitos de trama ao seu redor em vez de ser a fonte dos mesmos.
E francamente, geralmente não fica legal quando ela é a fonte do conflito. Teve um momento em que um episódio se concentrou na dificuldade dela em conciliar seus estudos em enfermagem com a administração da família, e esse foi um bom episódio. Mas fora isso, os problemas de namoro dela geralmente são típicos de "Friends", consistindo majoritariamente de situações complicadas causadas unicamente pela incapacidade dela em se comunicar como uma pessoa normal com seu namorado ou família.
Houve também um episódio na segunda temporada que focou em sua depressão. Ela parou de tomar antidepressivos temporariamente, e isso teve seu preço. Só que foi muito rápido, chegou a um nível crítico e foi resolvido dentro de um único episódio. Me parece um tema muito grande e relevante para a série tratar tão rapidamente.
Ela também é a pior para discutir temas importantes. Quando a série precisa fazer um discurso sobre algum assunto (direitos LGBT, imigração, etc), ela é quem faz esse discurso, e não fica legal. Soa literalmente como marketing de campanha, e eu fico esperando que ela vire para a tela ao final e diga "E por isso que eu vou votar no candidato X, que vai lutar para melhorar Y e Z".
Mas reitero que gosto dela. Ela serve bem de suporte para os demais, frequentemente aliviando as falhas dos outros personagens. E quando o ex-marido Victor entra em cena, finalmente ela se torna um ponto focal interessante. E ela é realmente a mais engraçada, piadas envolvendo ela não são "cringy" quase nunca, mesmo quando falham. O mesmo não pode ser dito dos demais.

Schneider
O vizinho intrometido, que também é o síndico do prédio, pois é dono dele. Ele é rico e não realmente faz nada da vida alem de cuidar do prédio. Ele faz questão de se introduzir na vida da família Alvarez, e ate certo ponto é realmente aceito nisso. Ele que leva o Alex para os treinos e jogos de baseball, ele tenta aprender espanhol para entender melhor a cultura da família, e tudo mais.
No que se refere à comédia, ele falha seriamente. Raramente é engraçado, só, de fato "cringy". A riqueza dele o permite incluir muitos absurdos na vida da família Alvarez que acabam por ser divertidos as vezes, no entanto.
A série não fez questão nenhuma de lidar com os problemas pessoais dele ate então. Talvez os escritores façam questão de focar na série como algo progressista para uma audiência latina ou lgbt, então não querem focar nos problemas de um homem branco e rico. Apenas no ultimo episódio da segunda temporada a série brevemente aborda essas questões. O sujeito teve uma vida familiar claramente terrível, sem nenhum amor (por isso se apega tanto aos Alvarez), e tem problemas com vício em diversas drogas, incluindo álcool. Definitivamente espero que a terceira temporada dê mais atenção a isso.

Elena Alvarez
Filha mais velha de Penelope. Spoilers leves (não importa, é sitcom): é gay.
Ela é o centro ativista da série. Geralmente é quem primeiro vai chamar atenção para qualquer assunto politico que possa vir a tona. Inicialmente isso não é tão irritante, já que é usado como comédia pela própria série e o resto da família não leva a sério também.
Da metade da primeira temporada em diante, existe um foco na tensão dela em "sair do armário". Por um lado isso me incomodou, já que considero toda a tensão e drama ao redor de sair do armário algo meio... ultrapassado. Muita gente e a própria série trata como se fosse um defeito a confessar, sendo que o ideal de normalização de igualdade LGBT seria a ausência de necessidade de se declarar gay para a sua família ou amigos.  Mas... é uma família latina católica, na qual a avó é relativamente conservadora, então acho que da pra entender... Elena se sentiria constantemente ansiosa quanto a isso se "confessar" ser LGBT para a família aliviaria isso, sem ter que esperar ate ter um relacionamento e então ficar obvio para todos.
Esse drama é bem abordado e discutido na série, acho. Especialmente quando envolve o pai dela, Victor. Mas na segunda temporada ela se torna bem menos interessante... nos primeiros episódios ela parece ter virado uma paródia de Lisa Simpson, que sempre esta super entusiasmada com qualquer movimento ativista que esteja na moda, mas em seguida ela arranja uma namorada e isso some. Em vez disso ela passa a ter... os mesmos tipos de problemas estilo "Friends" que sua mãe Penelope tem com o próprio relacionamento: total incapacidade de comunicação básica. É o extremo cliche de conflitos em sitcoms, e eu acho muito frustrante.
Suas interações com Schneider são divertidas, mas ela não é exatamente engraçada, sendo também muito "cringy".

Alex
O filho mais novo de Penelope, e o maior ponto fraco da série.
Francamente, ele é só irritante. Todas as piadas e conflitos relacionados a ele são sobre quão incrível ele pensa que é, e quão incrível a avó dele pensa que ele é. Nada interessante.
A "One Day at a Time" original durou 9 temporadas. Talvez os roteiristas desse remake tenham em mente uma meia duzia de temporadas, e se preocupem que vão ter poucas opções de temas sérios para discutir com os outros personagens, então eles planejam manter o Alex como alívio cômico ate o personagem envelhecer um pouco e poder abrir discussões melhores.
O problema é... Um personagem de alívio cômico em uma comédia costuma ser só um incomodo, já que comédias não necessariamente precisam de alívio cômico.

Lydia Riera
Mãe de Penelope. Cubana que fugiu no começo do regime Castro.
E ela vive falando de Cuba, é super orgulhosa e tal. Me incomoda um tanto que elogie tanto Cuba, critique tanto Castro, e tal. Faz parecer que Cuba era alguma utopia democrática antes de Castro, mas não era, era simplesmente uma ditadura diferente. Mas acho que a série não ousaria dizer isso se pretende agradar o público latino, incluindo cubanos da Florida.
No geral Lydia é uma pessoa... bem desagradável. Não me incomoda toda a vaidade e orgulho dela, mas ela tende a mentir e manipular as coisas pra que saiam a seu favor. É normal que personagens de sitcom sejam babacas, no entanto, então não chega a ser um problema.
Mas ela é repetitiva, com toda essa coisa de ficar falando de Cuba sem parar, ou elogiando Alex sem parar. Não acrescenta muito à estória exceto ser alguém contra quem Penelope frequentemente precisa brigar para declarar autonomia sobre a própria vida e filhos.

No geral, One Day at a Time é uma boa sitcom. Pelo menos em comparação a outras sitcoms live action. Mas isso não é dizer muito.
É relativamente inteligente e tenta discutir assuntos políticos importantes, mas não faz isso com maestria e as vezes parece estar repetindo discursos enlatados.
É engraçada, as vezes bastante. Mas não constantemente e é possível passar episódios inteiros sem nem uma risada leve as vezes. As vezes o episódio é intencionalmente mais sério... as vezes não.
Anyway, recomendo pra quem esta na mesma situação que eu, de não conseguir achar sitcoms minimamente decentes na Netflix. Mas fora isso, não é nada especial que valha a pena parar o seu dia pra assistir.

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